Poucas pessoas que eu conheço , passaram incólumes pela leitura de duas séries de livros que extasiaram os leitores nos anos '80: os "Anedotário da Rua da Praia" e os "Rapa de Tacho". Seus autores, igualmente brilhantes e igualmente advogados, Renato Maciel de Sá Junior e Aparício Silva Rillo, possuíam o dom de colocar o leitor dentro da história e por mais de uma vez já ouvi gente contando àquelas histórias da Porto Alegre antiga ou os "causos" como se fossem próprios, alguns até descaradamente.
O "Anedotário" foi um trabalho de exaustiva garimpagem em que o Renato Maciel ouviu centenas, talvez milhares de histórias, tanto que fez constar em seus agradecimentos, muitas e muitas pessoas com quem teve a oportunidade de recolher os deliciosos relatos daquela Porto Alegre. Já o Rillo, pelo que consta, registrava os causos "de cabeça" e depois os "passava a limpo", quando chegaram a um bom número , resolveu que era hora de publicá-los.
Imagino ambos, lá no rincão do Pai Eterno, contando suas histórias numa roda de amigos não menor que um Maracanã lotado, fazendo a alegria da eternidade.
E por aí me vou, entre balcões de cartório e salas de audiência, corredores de Tribunais e escritórios, recolhendo da trama diária os momentos que nos fazem rir.
É sabido que muitos autores disfarçam suas experiências pessoais na vida dos personagens que criam - enquanto que outros tantos difundem a idéia de que o autor somente interfere na vida deles não servindo ou não sendo apropriado revelar suas próprias aventuras. No meu caso, como não me filio a nenhuma das posições , abro o nosso "EX POSITIS" com uma mancada monumental da minha própria lavra.
DISCURSO DE JUBILADOS
" Faz poucos anos, num desses dias corridos em que o tempo te cobra todos os minutos do relógio e a via crucis que nos faz ir de Tribunal em Tribunal, de Foro em Foro ainda me lembrava que tinha que prestigiar uma cerimônia de jubilados no auditório da OAB. Atrasado, por óbvio não consegui lugar para sentar e como algumas pessoas se alglomeravam de pé na porta, que ficava nos fundos do salão, fiquei também ali, campeando com os olhos alguma cadeira vaga. A cerimônia se desenrolava e chamavam o orador da turma de jubilados para discursar e...êpa tem gente saindo e é ali mesmo que vou sentar, enquanto as pessoas vagarosamente se espremiam para passar entre as filas para sair dos seus lugares eu esperava em pé no corredor, só pensando em sair logo da frente dos que queriam ouvir o orador. Parece que quanto mais pressa se tem mais devagar os outros andam e tentando não atrapalhar quem queria ouvir e aflito com as pernas que não saiam do caminho para me deixar passar o ouvido atento no discurso eis que o cérebro me trai, o ouvido não acompanha e a língua que deveria ser obediente, não é. O orador, numa pausa costumeira de seu discurso me dá entender que lhe faltou a memória e naquele micro-segundo em que o inconsciente, ante o caos da situação, toma conta , sem meu comando, minha boca abre e num ato de invulgar coragem salvo o orador de seu "branco". No mesmo instante em que toda sala olha para mim, querendo entender o jogral improvisado, decido que não quero mais me sentar, quero é sumir e dou as costas a todos e me sumo do auditório. Não sem antes ouvir do assustado orador: - Obrigado colega !
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
MATHIAS...
Terminada campanha política para eleições na OAB/RS é comum, após assimilarmos os resultados, a tão conhecida operação rescaldo. A derrota no pleito que não teve o condão de derrubar os antigos guerreiros, pelo contrário, foi um bálsamo que veio para curar de vez, velhas feridas permanentemente abertas, nos trouxe também, como prêmio, a convivência, a camaradagem e a amizade de um grande advogado: Mathias Nagelstein . Não fui seu aluno, embora tenha me graduado na mesma Universidade em que ele deu aula, portanto não posso deixar de sentir que fui alvo de um desencontro no destino que me custou uma lacuna na minha educação acadêmica. Durante pouco mais de 50 dias pude conhecer não somente o profissional respeitado no País inteiro, mas também o pai, o marido, o colega, o líder . Ter diariamente recebido a atenção, a consideração e por fim a amizade do Mathias, sim porque os pronomes de tratamento circunspectos e formais foram retirados " a tapa" da nossa rotina, sem qualquer pejo ou lugar comum. - Mathias é como os amigos me chamam, disse ele, vamos deixar esses rapapés lá prá ... E com seu costumeiro bom humor, sua fala metodicamente pausada presenteava-nos diariamente com histórias e "causos" divetidíssimos, fazendo com que ainda hoje possamos sentir falta daqueles dias de elevado stress, correrias, programações, compromissos e tudo o mais que ronda a rotina de um comitê eleitoral. Da minha parte, e sei que da Jô e do Marco também, devo dizer: - Obrigado Mathias, muito obrigado !
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
MÊDO É CULTURA ?
Do sempre iluminado, Divaldo Pereira Franco, colhi uma de suas tantas pérolas: "A cultura do mêdo que se instalou no início deste século para difundir estranhas profecias de finais dos tempos." Está repleto de razão o nosso mestre. Não há um só dia na vida da gente desde que multiplicou-se exponecialmente o acesso à Internet, que não chegue a minha caixa postal um número expressivo de mensagens propagadoras do "mêdo"! É bebida que não presta, remédio que danifica, cadeira de cinema com agulhas, golpes dos mais variados, estacionamentos de shoppings com Vans de malfeitores, elevadores, caixas de leite recicladas, hamburguer de minhoca, refrigerantes carcinogênicos, etc, etc, etc ... A quem tudo isso aproveita . É uma série imensa de NÃO FAÇA ISSO, NÃO FAÇA AQUILO, NÃO COMA, NÃO BEBA . Até mesmo as inocentes correntes de oração difundem o mêdo: o medo de não ter, o mêdo de não ser . Vai daí que quem gosta de pensar e raciocinar um pouco mais adiante pode simplesmente deduzir , alheio as tantas conspirações da moda, que fora o tempo gasto em ler tanta inutilidade, nada mais resta. Mas é fato que os impressionáveis de plantão são , à guisa de um cálculo matemático básico em relação ao número de acessos mediatos à web, dezenas de milhões. Entre tantos, crianças e adolescentes cujo imediatismo da vida é calculado pelo número de msg, posts, torpedos, twitters que conseguem enviar e receber no espaço de tempo em que permanecem acordados. Sim , MÊDO é cultura, e não é de hoje. Difundir o mêdo é um dos tantos modos existentes desde a existência da palavra escrita e a partir de Guttemberg, publicada, que se utiliza para manipular a vontade do outro. Toda religião fala de mêdo. Alguns irão dizer: - Mas fala de amor também. E existe amor sem mêdo? As reações físicas que se experimenta em ambas as situações não são absolutamente iguais ? E a indagação seguinte é: O ser destemido pode amar alguém ou algo ? Não nesse mundo eu concluo. O amor traz apego, tanto ao material como ao imaterial e nesse espaço preenchido de mêdo, acaba não sobrando lugar para a evolução racional e sistemática. Amar é ótimo, mas como seria amar quando se chega ao passo seguinte da evolução ? O amor incondicional. O amor universal. Deixamos de ter mêdo quando a razão para tê-lo se desvanece na maioria absoluta dos casos, justamente quando se manifesta o nosso lado racional e pragmático. Ninguém perde o mêdo por coação, por determinação superior ou por vontade de terceiro. O mêdo deixa de existir justamente quando equilibramos a equação da nossa razão com a incógnita do futuro, cujos dados são representados pelo conhecimento acumulado por toda uma existência. Já dizia o ditado: " tem mêdo mas não tem respeito" . Porque é mais fácil ter mêdo. Respeito é conquista e consciência, apesar dos enganos comuns, não há convivência entre os dois por óbvias razões. Nesse embalo utópico, por sinal, é que se deveria fomentar uma nova cultura. A cultura do Respeito, começando pelas coisas mais elementares das relações humanas e indo até ao respeito universal à toda forma de vida e seu direito de co-existir em harmonia.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
PEQUENAS HISTÓRIAS, GRANDES ADVOGADOS
Já há algum tempo, tive a ideia de reunir, com os colegas "de mais experiência" do que eu, as boas histórias de advogado que nos fazem lembrar o que nos fez um dia optar por essa digna profissão. Mas para nós , escritores ficcionais amadores, o propósito da obra tem um quê de metafísico e ao mesmo tempo de realidade. Quantas e boas histórias já não ouvimos ou , participamos e que na roda dos amigos sempre arrancam sorrisos, algumas, gargalhadas outras tantas e nostalgia, quase todas. Por falar em nostalgia, nunca em minha vida poderia imaginar que me rotulariam, algum dia de "bonachão", pois foi o que eu soube dias atrás: - O Zico ? É aquele ali, o bonachão ... Vai daí que a minha famosa paciência me transformou no típico ouvinte, qualidade (olha a modéstia) que cultivei nos dias que passei com meu avô Danilo Bernardi, cuja a veia para contar uma boa história, recheada de datas, horários e locais que a sua privilegiada memória faziam-me transportar no tempo há uma Porto Alegre que só vemos por fotos tão antigas quanto a própria Capital. Mas, infelizmente, no meu DNA, não herdei àquela memória fabulosa e penitencio-me por ter perdido algumas histórias deliciosas. Esse carinho e respeito pela tradição da memória oral, que muitas vezes coçou-me os dedos para sair registrando as histórias dos colegas que mesmo não sendo "de banca", tinham verdadeiros arsenais de situações vivenciadas em anos de prática forense, a essência da expressão "esfregar a barriga no balcão". Então , fazendo a minha parte para demosntrar aos colegas mais novos uma época em que o Advogado, trazia no seu semblante o orgulho da profissão e cercava-se da mais pura camaradagem com os outros profissionais da área (hoje operadores do direito), vou à caça dessas boas histórias.
sábado, 5 de dezembro de 2009
O CANSAÇO DOS BONS (PRINCÍPIOS)
Recebi um texto escrito por Ricardo Gondin, a quem não conheço mas profundamente revelador de um sintoma que detecto em alguns amigos advogados e companheiros de caminhada. O cansaço da luta pela ética e pelos bons costumes - pelos princípios básicos da convivência harmônica do ser humano em sociedade. Pertenço à geração que ouvia já nos idos do que se chamava estudo primário, entre 1970 e 1978, que nós seríamos o futuro do País. Lembro-me da ocasião em que comemorávamos a semana da Pátria, hasteando a bandeira e cantando o hino nacional (recentemente parece que arqueólogos sociais descobriram que amar a pátria e cantar o hino faz bem a construção de um caráter cívico nas crianças) até usávamos um crachá verde-amarelo na lapela durante àquela semana e à guisa de ouvirmos no pátio do colégio o discurso de alguma "autoridade" - a direção do colégio catou na rua o primeiro brigadiano que passava. O discurso foi breve , e o contexto, lembro-me bem, foi que nós crianças "éramos o futuro do país e deveríamos tomar muito cuidado ao atravessar à rua". Isso mesmo. O que mudou até hoje? A geração que iria mudar o País assiste a irremediável derrocada dos princípios éticos e morais para o convívio em sociedade e em relação ao trânsito teve que aprender que álcool e direção são ingredientes que não se combinam. Nos remetemos e-mails mostrando como éramos felizes sujando nossos pés na rua, jogando bola até à noite assitindo programas de TV cujo grau de malícia existente, comparados aos de hoje, para o mesmo público, não bateriam aos teletubies (com conotação afrescalhada e tudo mais). Se bem que até hoje me pergunto como a censura , cujo slide aparecia sempre no início de cada programa, permitia que as crianças assitissem a mortandade de índios nos filmes de faroeste ? Sim , que os índios eram todos maus. Índio bom era àquele que andava junto com o mocinho, brigava ao lado do mocinho, mas na hora das refeições e de dormir, ia para junto do cavalo. Enfim, prendemos nossos filhos em casa, na frente do computador, centenas de especialistas na TV, sobre tudo, realitys shows até das pulgas do cachorro da Ivete Sangalo e tudo o que fazemos é nos lamentar e esperar que alguém mude o que está aí. Mas nossos líderes, ou pelo menos os que pensávamos serem, ou se corromperam, ou estão cansados. Porque a indiferença cansa, o deboche cansa, a ironia cansa e a vida que nos resta querem que usemos para beber, cair e levantar. Eu , pelo menos, ainda não caí - e quem cair do meu lado, eu levanto, nem que seja prá tirar do caminho.
sábado, 21 de novembro de 2009
PRÁ INÍCIO DE CONVERSA
Como já dizia o poeta, "variações do mesmo tema sem sair do tom" equivale a primeira postagens de tantos quantos já passaram por esta experiência de relacionar-se com o mundo virtual através de um blog. Por muitos anos, tive verdadeiro pavor de ser óbvio, o que redundaria em ser comum, ser o mesmo, não ser original - conceito que com o avanço da idade me fez pensar em coisas mais interessantes para se preocupar, principalmente com o fato de que na velocidade em que vivemos, a síntese passou a ser padrão e o desenvolvimento de idéias e raciocínios virou sinônimo de lentidão. Nada melhor, portanto, para a difusão da mediocridade que um terreno em que se proliferem os irônicos de plantão, os descolados, os debochados, os intelectualóides que pretendem fazer graça em tudo que escrevem. RESPEITO É LEGAL tentará difundir a idéia, democrata por sinal, de que ao direito de falar corresponde a obrigação de ouvir, de que a verdade aparente não é "a verdade" de um mas um anseio dela apenas e que meias-verdades, são ética e moralmente indefensáveis , pelo menos no meu ponto de vista. De outra feita, é disso que se trata também, pontos-de-vista (continuo hifenizando) , convicções e a defesa delas. O debate, a troca de idéias, o livre convencimento e até mesmo a defesa apaixonada, são demonstrações de questionamentos cuja única regra geral para estabelecer-se a finalidade de um propósito benéfico a todos é: RESPEITO
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