quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

EX POSITIS 1 - DISCURSO DE JUBILADOS

Poucas pessoas que eu conheço , passaram incólumes pela leitura de duas séries de livros que extasiaram os leitores nos anos '80: os "Anedotário da Rua da Praia" e os "Rapa de Tacho". Seus autores, igualmente brilhantes e igualmente advogados, Renato Maciel de Sá Junior e Aparício Silva Rillo, possuíam o dom de colocar o leitor dentro da história e por mais de uma vez já ouvi gente contando àquelas histórias da Porto Alegre antiga ou os "causos" como se fossem próprios, alguns até descaradamente.
O "Anedotário" foi um trabalho de exaustiva garimpagem em que o Renato Maciel ouviu centenas, talvez milhares de histórias, tanto que fez constar em seus agradecimentos, muitas e muitas pessoas com quem teve a oportunidade de recolher os deliciosos relatos daquela Porto Alegre. Já o Rillo, pelo que consta, registrava os causos "de cabeça" e depois os "passava a limpo", quando chegaram a um bom número , resolveu que era hora de publicá-los.
Imagino ambos, lá no rincão do Pai Eterno, contando suas histórias numa roda de amigos não menor que um Maracanã lotado, fazendo a alegria da eternidade.
E por aí me vou, entre balcões de cartório e salas de audiência, corredores de Tribunais e escritórios, recolhendo da trama diária os momentos que nos fazem rir.
É sabido que muitos autores disfarçam suas experiências pessoais na vida dos personagens que criam - enquanto que outros tantos difundem a idéia de que o autor somente interfere na vida deles não servindo ou não sendo apropriado revelar suas próprias aventuras. No meu caso, como não me filio a nenhuma das posições , abro o nosso "EX POSITIS" com uma mancada monumental da minha própria lavra.

DISCURSO DE JUBILADOS
" Faz poucos anos, num desses dias corridos em que o tempo te cobra todos os minutos do relógio e a via crucis que nos faz ir de Tribunal em Tribunal, de Foro em Foro ainda me lembrava que tinha que prestigiar uma cerimônia de jubilados no auditório da OAB. Atrasado, por óbvio não consegui lugar para sentar e como algumas pessoas se alglomeravam de pé na porta, que ficava nos fundos do salão, fiquei também ali, campeando com os olhos alguma cadeira vaga. A cerimônia se desenrolava e chamavam o orador da turma de jubilados para discursar e...êpa tem gente saindo e é ali mesmo que vou sentar, enquanto as pessoas vagarosamente se espremiam para passar entre as filas para sair dos seus lugares eu esperava em pé no corredor, só pensando em sair logo da frente dos que queriam ouvir o orador. Parece que quanto mais pressa se tem mais devagar os outros andam e tentando não atrapalhar quem queria ouvir e aflito com as pernas que não saiam do caminho para me deixar passar o ouvido atento no discurso eis que o cérebro me trai, o ouvido não acompanha e a língua que deveria ser obediente, não é. O orador, numa pausa costumeira de seu discurso me dá entender que lhe faltou a memória e naquele micro-segundo em que o inconsciente, ante o caos da situação, toma conta , sem meu comando, minha boca abre e num ato de invulgar coragem salvo o orador de seu "branco". No mesmo instante em que toda sala olha para mim, querendo entender o jogral improvisado, decido que não quero mais me sentar, quero é sumir e dou as costas a todos e me sumo do auditório. Não sem antes ouvir do assustado orador: - Obrigado colega !

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